domingo, 16 de maio de 2010

Capitulo Sétimo

“Mas o que realmente importa nela não são suas palavras, e sim a quem estava destinada suas palavras.”

Philippe Lauck


     - Rachel pare agora de mexer em minhas coisas! – disse a empurrando
     - Para de empurra! – gritou ela mordendo minha mão.
     - Ai! – gritei enquanto ela saia correndo – Sua mimada!
     Agachei-me no chão e comecei a arrumar meus papeis. Ao levantá-los – e junto me levantar – ouvi um baixo barulho de algo leve cair, coloquei os papéis em cima de um cômodo comprido de madeira escura do meu quanto e baixei meu olhar e no chão de madeira um cordão delicado e feminino se destacava brilhando onde havia sol.
     “Nossa já faz um bom tempo!” – pensei – “Será que ela ainda pensa em mim?” – franzi o cenho – “Não claro que não!” – Hmpf – resmunguei balançando minha cabeça com um quase sorriso desenhado em meu rosto. Abaixei-me devagar até meus joelhos encostarem-se ao chão, peguei a delicada corrente olhando bem concentrado, balancei novamente a cabeça retirando as lembranças do dia do hospital e o coloquei – praticamente o joguei – dentro de uma caixinha que ganhará de uma ex-namorada. Andei até a cama e gritei:
     - Mããããe! Quando o jantar fica pronto?
     Demorou um tempo, mas tive uma resposta quase muda de tão baixa.
     - O jantar fica pronto da que uns quinze minutos filho!
     - Tá bom! – gritei de volta e então coloquei meus fones de ouvido, aumentei a musica e comecei a cantar sua letra:

     Peguei um caminho até o fim da linha
Onde ninguém jamais foi.
Acabei em um trem quebrado com ninguém que conhecia.
Mas a dor e desejo eram os mesmos
De onde eles morreriam
Agora eu estou perdido e gritando por socorro.

     Relaxe, vá devagar 
Pois não nada que possamos fazer. 
Relaxe, vá devagar 
Ponha a culpa em mim ou em você. 

     É como se eu estivesse assustado. . 
É como se eu estivesse aterrorizado. 
É como se eu estivesse assustado. 
É como se eu estivesse brincando com fogo. 
Assustado. 
É como se eu estivesse aterrorizado. 
Você está assustado? 
Você está brincando com fogo? 

     Relaxe 
Existe uma resposta para estes momentos mais sombrios
É claro que não entendemos 
Mas a última coisa que passa pela minha cabeça 
É abandonar você
Acredito que estamos juntos nessa,
Não grite - existem muitos a caminhos a seguir.” (Relax, take it Easy - Mika)

     Ao cantar esta ultima parte um rápido insight lançou pequenos fleches em minha mente, fazendo novamente com que me lembrasse das cenas do hospital, e uma pequena saudade da leve sensação prazerosa que me ocorreu em tal momento.
     Existe uma resposta para estes momentos mais sombrios”...“É claro que não entendemos” - pensei cantarolando em minha mente – “Mas a última coisa que passa pela minha cabeça”  - cantarolei em pensamentos – É abandonar você! – quase falei. Comecei a perceber que está musica cada vez mais entrava em meus pensamentos tomando conta de meu cérebro com lembranças de Michelle. Passei a mão em meu cabelo varias vezes com finalidade de afastar tais pensamentos, não funcionou.
     Alguém bateu na porta aliviando meus pensamentos perdidos em curiosidade. – Quem é gritei. – mas ninguém respondeu. “Estranho” pensei comigo mesmo.
     - Rachel! Sua mimada! O que quer aqui? – gritei mal-humorado.
      A porta se abriu bem pouquinho e pude perceber a lateral de seu rosto encolhido por trás da porta. E baixinho disse:
     - Mamãe pediu pra eu te avisa que o jantar ta na mesa – terminou a frase e saiu correndo. “Estranho” pensei de novo.

     - Oi mãe – falei pegando meu prato me servindo. – Oi pai.
     - Eai filhão! Fiquei sabendo de mais uma nota alta na prova de física. – sorri. – se continuar assim, logo terá um aumento na mesada!
     - O que houve para resolver estudar? - Melany, minha mãe disse desconfiada.
     - Nada, mas as vezes é bom estudar – sorri.
     - Você está querendo é o carro quando completar dezesseis anos!
     - Bom... – sorri maliciosamente –, tem isso. Mas os estudos são importantes – meu sorriso malicioso agora mudava para um sorriso amarelo. Olhei de soslaio para o lado onde minha mãe estava sentada e vi ela balançando a cabeça de um lado para o outro com cara de você-não-tem-jeito-mesmo. Ri de um modo gostoso.
     Terminamos de jantar, ajudei minha mãe a tirar a louça e subi para meu quarto. Atirei-me na cama e fiquei olhando para a caixinha que ganhara de presente de minha ex-namorada, Kate.
     Kate é loira – seu cabelo era quase branco de tão loiro – tem olhos bem escuros e grandes, sua pele num tom escuramente clara que chama atenção de todos, realmente tive sorte - quase sorte -, de tela como namorada” pensei obscuramente enquanto me deitava pensativo. Fechei os olhos e apoiei minha cabeça em um dos meus grandes travesseiros, coloquei meus braços em minha testa cruzando-os e fiquei lá, acordado, pensando, sonhando acordado, imaginando, inventando. Dormi.

     Acordei com o sol na manha seguinte. Abri meus olhos e gemi de dor ao esticar meus braços que junto comigo adormeceram na noite. Levantei-me da cama num pulo e corri para o banheiro. Tomei aquele banho e então voltei para meu quarto. Já de roupa fui para a cozinha e comi uns bolos enquanto minha casa permanecia adormecida. Voltei para meu quarto. Peguei meu violão e dele fiz sair algumas notas que dançavam tristezas. Não entendia exatamente o motivo das notas soarem tristes em meus ouvidos, me sentia solitário algo em mim faltava. Não me sentia daquele jeito a um tempo, tudo era quase novo. O sentimento, a sensação, o motivo. Qual era o motivo? Perguntava-me inquieto, e os ecos das melodias ecoavam sem resposta.
     Meio dia enfim escutei um barulho, minha mãe. Uma leve batida em minha porta e um agradável som dançava em meio de minha música.
     - Filho, já acordado? Posso entrar?
     - Oi mãe entra. – respondi calmamente enquanto parava de tocar.
     Entrou, fechou a porta e sentou-se ao meu lado na cama.
     - Acordou que horas?
     - Umas dez. Acho... – olhei para o teto.
     - O que tocava? Nunca ouvi esta musica.
     - Não é uma musica. – sorri – Estava só tocando...
     - Ah. – seu rosto parecia decepcionado – Toca mais. – sorriu.
     Balancei a cabeça anunciando um “sim” e voltei a tocar melodias soltas. Como eram comuns esses momentos, e como eu adorava. Simples e gostosos.
     Uns quinze minutos de violão e conversa, num susto uma batida forte na porta nos despertou da viagem.
     - Mamãe! – a porta se abriu delicadamente - To com fome!
     - Entra um minuto Ray! Estamos tocando.
     Em saltos e sorrisos Rachel entrou e se jogou num pufe azul marinho do lado da minha cama “Toca, toca, toca!” cantou. E então continuei de onde tinha parado. Novamente entramos em um transe perdido pelas melodias que saiam do violão. Parei. Ray e Melany olharam para mim desejando mais.
     - Já deu né gente – ri gostoso.
     - O.k. mas depois, ainda hoje, teremos mais! – ordenou com brincadeira mamãe.
     - To com fome!
     Rindo Melany respondeu:
     - Claro calro! Venha, vamos. – E então saíram serenamente. Bom, na verdade Ray estava mais aos pulos cantarolados do que em serenidade.
     O resto da manha e o inicio da tarde foi tudo mais ou menos assim, eu na minha, meus pais nas deles e Ray de vez em quando entrava em meu quarto para me irrita. Coisa que ela não conseguiu e logo desistiu.
     - Phi?
     - Oi, pode entra.
     Ligeiramente a porta se abriu e uma pessoa pequena correu para minha cama e se deitou. Olhei-a franzindo a testa e perguntei:
     - O que você está fazendo aqui?
     - Tava pensando “nu” meu quarto né. Ai eu quis vim aqui para pergunta... – mordeu o lábio e continuou. – Quem é a menina da foto do colar?
     - Hein? – resmunguei colocando com cuidado o violão no chão. – Como você sabe dela?
     - Porque ela parece com a menina bonita que bateu na porta do hospital aquele dia que eu tava mal...
     Nossa como essa menina tem boa memória. CALMA. Quer dizer que ela foi até o quarto da Rachel?
     - Calma, calma, calma! O que ela foi faze no seu quarto?
     - É ela? – sua boca fez formato de um “O”.
     - O que aquela menina foi fazer lá?
     - Nada, ela disse que bateu no quarto errado.
     - Mas... – pensei alto.
     - É ela né? Vocês tão namorando?
     - Não! Obvio que não! Faz mó tempo que eu não falo com ela! E você não tem nada com isso! Sai já daqui! – gritei furioso.
     - Chato! – gritou Ray batendo a mão em minha perna e saindo correndo do quarto chorando.
     “Porque aquela garota me deixa assim? Não tenho nada com ela!” pensava bravo enquanto me levantava. Respirei fundo afim de afastá-la de meus pensamentos – de novo – e então fui para a sala com alguns instrumentos que haviam em meu quarto.
     Lá sentei no sofá de couro branco cruzando as pernas. Apoiei meu violão em minha perna esquerda enquanto jogava na mesinha de centro um tambor bem pequeno e uma gaita. Comecei novamente a tocar notas perdidas para chamar atenção de minha mãe, minha irmã e meu pai. Não demorou muito e todos estavam acomodados no sofá. Ray pegou o pequeno tambor e Melany a gaita. Num ritmo sincronizado, como se tivéssemos ensaiado, uma agradável musica sem rumo saia de cada instrumento. Rachel correu para o coloco de John – meu pai – que pegou suas mãos e começou a batucar no mesmo ritmo que eu e minha mãe. Logo estávamos enfeitiçados pela musica.
     Todos pararam de tocar no mesmo momento, deixando o som de meu querido instrumento voar sozinho pelo espaço vazio da sala. Parei logo depois e os olhei sem entender. Melany e John se entreolharam e então Rachel deixou seu tamborzinho cair quebrando o silencio. Sorriu e falou:
     - Canta de novo! Vai, vai canta!
     Algo estava errado. Eu não havia cantado. Bom só em minha mente. Será que eu não percebi? Não. Claro que não!
     - Cantar o que? – respondi com medo de mim.
     - Como cantar o que? Você fez esta musica filho? – perguntou-me Melany.
     - Eu não cantei! – parei e olhei para o violão - Cantei?
     - Cantou! – disse meu pai.
     Fiquei pensando comigo um tempo, e então senti meu rosto esquentar, se eles ouviram minha musica então significa que eles escutaram meus sentimentos. SEM MINHA PERMIÇÃO. Quis gritar, mas também não era culpa deles se eu não percebi que cantei alto o que pensava.
     - Vai Phi! Canta, canta! – Ray pulou do colo de meu pai ara o sofá depois do safa para o chão e lá ficou me fitando enquanto pulava animada cantando – bem desafina por sinal – um pedaço da letra de minha musica. – “Enquanto a tristeza vai me dominando eu vou escrevendo e tentando viver. Nada...”
     - O.k. Ray já deu!
     De bico me olhou com raiva e mostrou a língua.
     - A Ray larga de mimo! – de novo um silencio dominou a sala que do nada pareceu escurecer pela tristeza da letra. – Mãe? Pai?
     - Oi? – responderam juntos.
     - Nada. Nada – disse levantando-me. – Boa noite. Vou para meu quarto.
     - Boa noite filho – Disse minha mãe.
     - Boa noite – Rachel e meu pai falaram juntos.

      Cheguei a meu quarto e fiquei pensando sozinho na letra que havia inventado e a quem ela destinava. A letra não era completamente real, digo, ela não é realmente verdadeira. Eu sabia a quem escrevia, mas ao mesmo tempo não sabia. “Estranho” fiquei pensando. Então me levantei, peguei um papel e um lápis, pensei mais algumas vezes na letra entre tanto comecei a escrever a musica:

     Enquanto a tristeza vai me dominando
eu vou escrevendo
e tentando viver.
Nada de errado com alguém,
nenhuma certeza com alguém,
é saudade que tenho
e é isso que me incomoda.

     Gosto de chorar,
isso me faz pensar:
quem é essa pessoa? (quem é?) (quem é ela?)...
Escuto-te a me chamar
nas musicas que ouço,
será que me apaixonei?

     Talvez esteja sentindo calor
ao pensar nesse alguém.
    
     Desejo sentir uma saudade real...
ou pelo menos
minha saudade ter um dono verdadeiro...
que eu saiba quem é.
    
     Pensar em você
sem realmente saber quem é
não é o suficiente para mim...”
     A musica era boa, mas comparado com minhas outras, não passava de algumas letras jogadas em um papel qualquer. Mas o que realmente importa nela não são suas palavras, e sim a quem estão destinada suas palavras. “Michelle?” pensei na pergunta que eu já sabia que era a resposta. Mas não queria aceitar, não iria deixar que uma menina que mora em Vitoria mudar meus sentimentos presentes. “Ela está longe!” pensava para tentar esquecê-la “Eu moro longe dela!” pensei negativo novamente “Qual vai ser a próxima vez que a haverei?” No próximo aniversario de meu bisavô? Quando ele completar 101 anos?”pensei irônico.
     Joguei-me por debaixo das cobertas e relaxei até adormecer.

     - Ops! Desculpa não te vi – disse uma menina ao esbarrar em mim – Deixe-me que o ajude.
     - Não, tudo bem. – disse enquanto me abaixava junto a ela para pegar as folhas com minhas musicas. Nossas mãos se tocaram e por um centésimo de segundo o tempo pareceu congelar, todo parou e então pude observar o rosto da menina que trombara em mim: cabelos compridos e ondulados em um tom de preto bem escuro, olhos levemente verdes e grandes, maquiagem degrade bege a marrom, nariz fino e levemente arrebitado dando-a um charme, e por final, sua boca, carnuda e convidativa. Segurei-me para não tocá-la com as pontas de meus dedos. Acordei de minha viagem ao sentir seus olhos nos meus.
     - Você quem fez? – perguntou ela baixando os olhos e lendo um pequeno trecho de uma das minhas musicas.
     - Sim, fui eu – sorri enquanto nos levantávamos.
     - Nossa... – disse seria – realmente muito bom. Meio triste.
     - São, meus poemas, minhas musicas costumam ser tristes...
     - Bom, não vou mais te atrasar – sorriu me entregou as folhas e saiu sem mesmo dizer seu nome. Olhei para trás e fitei seu caminho, sua leve e curta saia rosa a voar livremente para os lados mostrando-me suas perfeitas coxas. De repente uma musica agitada invadiu minha mente e num pulo acordei.
      - Ahn? – corri para a cômoda de madeira que havia perto da minha cama e peguei o colar que Michelle havia me dado.
      - Cabelos compridos em tom de preto bem escuro! Olhos verdes! Eu sonhei com ela? – falei quase gritando – Como assim? Nem a conheço! – realmente não queria aceitar o fato de que aquela menina era linda, convidativa e que talvez eu realmente estivesse gostando dela. Depois de tanto tempo sem pensar nela, depois de esquecer o colar.
     Voltei para minha cama e apertei o “silenciar” no meu celular para que parasse te tocar. Troquei de roupa e fui para a cozinha. Tomei meu café da manha, acordei Rachel e levei um leite com bolachas para seu quarto. Acordei minha mãe e fui para a sala com meu Ipod escutar algumas musicas enquanto esperava que Melany e Rachel ficassem prontas para irmos ao colégio. 

Um comentário:

  1. Coloque as promiscuidades do livro também, Tati!

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